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terça-feira, 17 de julho de 2007

OS COMUNISTAS E AS ELEIÇÕES

As eleições podem ser definidas como uma fotografia da realidade: mostram as tendências políticas da sociedade num dado momento - mas não a direcção o movimento e o ritmo que tomam. As eleições são um barómetro importante da luta de classes - mas não são a sua resolução, nem sequer a sua expressão mais viva.

Desde há muito que os grandes pensadores socialistas definiram que, na democracia burguesa, os proletários apenas estão em condições de escolher qual dos bandos burgueses os vão oprimir através do exercício do poder.

Com isto trata-se, não de menosprezar os chamados "direitos democráticos", nem o valor e papel dos processos eleitorais - apenas de os integrar, no seu devido valor, na luta viva entre as classes.

Em última instância, o que determina o triunfo e sucesso dum partido comunista - duma organização revolucionária - é, não tanto, os seus avanços eleitorais, mas o grau de organização, disciplina e elevação da consciência dos seus militantes.

Ao analisarmos os resultados eleitorais do escrutínio intercalar de Lisboa, devemos fazê-lo em função da luta social e política mais vasta que se desenrola no nosso país.

E o primeiro dado que salta aos olhos é a vitória de pirro do Partido Socialista: não chegou, sequer aos 30% dos votos expressos e o António Costa foi eleito por apenas 11% dos eleitores registados na cidade de Lisboa. Essa ausência de adesão popular ficou amplamente expressa no facto revelador de terem ido buscar "apoiantes" a Famalicão, Alandroal, etc., para agitarem bandeirinhas na festa do Costa (com paragem em Fátima)...

Isto, claro, apesar da derrocada da direita na cidade. Apesar dos escândalos, da crise financeira, da total incompetência, corrupção e desleixo da anterior vereação, o PS foi incapaz de capitalizar o descontentamento popular pelo desgoverno PSD/CDS de Lisboa. Com efeito, Costa apenas teve mais 3% do que o resultado já de si bastante indigente que teve Carrilho em 2005.

Um sinal claro de que as políticas pró capitalistas do governo PS, que a crise e austeridade são cada vez menos suportadas pela classe trabalhadora. Para aqueles (e nesta conta é preciso incluir os dirigentes do BE) que atacaram a Greve Geral e a caracterizaram como uma derrota, está a resposta sendo dada: 25.000 manifestantes em Guimarães, 10.000 trabalhadores da Função Pública na semana passada e este resultado à tangente que o PS conseguiu em Lisboa.
A Greve Geral não foi a "bomba atómica" nem sequer o fim da mobilização. Pelo contrário, a Greve Geral inseriu-se num conjunto importante de mobilizações operárias que, desde Outono do ano passado, têm vindo a ser protagonizadas. Com altos e baixos - pois o processo não é linear - o movimento operário e popular (quem pode esquecer as significativas lutas pela conservação de escolas, postos de urgência e maternidades) vai tomando consciência da sua força e capacidade. Os 7000 trabalhadores precários que a Interjovem mobilizou em Março são o claro indício de que uma nova geração operária está fazendo a sua entrada no palco da história - e nós vingaremos a revolução traída que os os nossos pais não terminaram durante o PREC.
Com todas as dificuldades, com todos os obstáculos, o movimento é ascendente e não poderia ser de outra forma: tal como na física, uma acção provoca uma reacção oposta e de igual intensidade, também na política, as políticas pró-capitalistas de Sócrates que quer resolver a crise à custa dos trabalhadores encontrará uma tenaz e igualmente firme reacção - quem pode negar que ela já vai sendo ensaiada?

Paralelamente ao circo da presidência portuguesa da União Europeia capitalista, saibamos levantar um Outono de luta e protesto pelos acordos colectivos de trabalho.

Por outro lado, a direita foi massacrada. Juntando os votos do PSD, CDS e Carmona, a direita não consegue mais do que 1/3 dos votos. O CDS saiu da vereação de Lisboa e o PSD teve 15%dos votos. Neste último partido recomeçou a disputa auto-fágica da liderança e assim estarão entretidos durante os próximos meses. Mas não há nada a fazer: o verdadeiro problema do PSD é o facto de que os melhores e mais competentes porta-vozes do Capital estão no governo PS a aplicar aquelas medidas que eles próprios não souberam/puderam aplicar...

Quanto ao CDS, há muito que cumpriu o seu papel histórico de ser (como foi no pós 25 de Abril) o instrumento da acção legal da reacção que punha bombas nas ruas sob as siglas do MDLP, ELP, MIRN, etc. e votos na urna com a cruzinha no CDS.

Marx escreveu certa vez que a história sempre se repete: da primeira vez sob forma de tragéida, mas na segunda sob a forma de comédia. O CDS, como partido, é hoje uma comédia facilmente dispensada pela burguesia. Existe ainda pela teimosia de alguns velhos saudosistas e pelo deslumbramento megalómano de Paulo Portas.

Quanto aos fascistas assumidos... Eles são uma expressão da crise, mas nem chegaram a ter 1%, ficando muito atrás da seita PCTP/MRPP. O seu crescimento para níveis significativos só poderá acontecer com a combinação de dois elementos: a profundização da crise económica e social (por um lado) e a incapacidade da classe trabalhadora em erguer uma alternativa revolucionária para a mesma. Só numa situação destas, poderão os fascistas ter espaço para crescer junto dos sectores mais atrasados e desesperados da classe trabalhadora e da pequena-burguesia arruinada.

Por outro lado, à esquerda do PS... de repente surgiu um bloco não homogéneo e até mesmo fracturado que representa 30% do eleitorado (CDU + BE + Helena Roleta), isto é, valeu tanto como o PS.

Não tenhamos ilusões na Helena Roleta! Todavia, o fenómeno Roleta, tal como antes dela o fenómeno Alegre, são a expressão óbvia de como o descontentamento popular contra as medidas do governo PS estão a causar mossa também dentro do PS.

É apenas o princípio, mas há medida que o caudal do movimento popular e operário se avolumar, aqueles sectores do PS mais próximos do mov. de massas, reflectindo as pressões destas, irão afastar-se das mais duras e injustas opções pró-capitalistas de Sócrates. Na Inglaterra, Tony Blair já saíu de cena e em Portugal não será diferente.

Quanto ao Bloco de Esquerda, falhou em (quase) toda a linha. Não elegeu 2 vereadores e não ultrapassou o PCP em número de votos. Salvou-se o "Zé". Sá Fernandes ganhou mum inusitado protagonismo com a interdição de várias obras em tribunal e, sobretudo, com a denúncia da tentativa de corrupção de que foi alvo. É certo que os eleitos do Bloco na Assembleia Municipal votaram favoravelmente o negócio Braga Parques e é certo que até foram os eleitos da CDU a colocarem esse processo em tribunal. Todavia, a gravação que o irmão do Sá Fernandes fez dum almoço com o dono da Braga Parques em que este se propunha comprar o voto do vereador do BE, catapultou o "Zé" para um protagonismo mediático que não irá mais ter nos próximos 2 anos. Esta era uma oportunidade de ouro para o BE dar um salto qualitativo, mas tropeçou na campanha populista dos "Zés que fazem falta", no abandono das suas propostas autárquicas mais interessantes (o orçamento participativo), na ausência duma estrutura militante e activista (que não soube, não quis construir) e nos zigzags que fez sobre o tema da unidade da esquerda: começou pro recusar coligações, depois disse que já fazia com a Helena Roleta, durante a campanha pôs-se a jeito para chegar a acordos pós eleitorais com o Costa, para terminar tudo em denúncia, baba e ranho, queixando-se de que o PS se iria coligar com o Carmona e não com ele...

Quanto à CDU, os resultados obtidos também têm, necessariamente, de saber a pouco! É verdade que a alta taxa de abstenção e a dispersão de votos pelas muitas candidaturas não ajudavam... Todavia, objectivamente, o descontentamento popular acabou por ser canalizado por outras vias que não através da força política (o PCP) que mais tem combatido o governo - e esse deveria ser um motivo de reflexão.

A continuar..

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