90 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA
Escrito no Verão de 1990, Ted Grant fez, neste artigo, a análise da desagregação vivida, naqueles dias, da ex-URSS, das suas razões e raízes, enquadrando o fenómeno não como a evidência do fim da história e do triunfo da capitalismo, mas na própria crise e incapacidade do próprio capitalismo em desenvolver as forças produtivas e garantir o bem-estar, a paz e a liberdade aos trabalhadores e povos do mundo. O artigo é tanto mais actual pelo facto de que, a crise e o impasse que Ted Grant denunciava ao capitalismo – na hora do seu maior triunfo – é hoje muito mais sentido e presente. O processo histórico tem-se desenrolado mais lentamente do que se esperava – e é impossível prever os ritmos e tempos da História -mas nos 90 anos da Revolução de Outubro, este artigo sublima esse acontecimento chave da era em que vivemos, armando os trabalhadores e jovens revolucionários com a análise marxista da revolução e contra-revolução ocorridas na Rússia. Por fim, este artigo é ainda uma enorme homenagem a Leon Trotsky – herói soviético e mártir da Revolução!Primeira parte
A Revolução Russa
O século XX foi uma época de mudanças maiores do que noutro qualquer período registado na história e certamente foi o mais conturbado da humanidade. Duas Guerras Mundiais, a Revolução Russa, o surgimento do Estalinismo, a vitória da URSS contra o nazismo, o fim da dominação directa do imperialismo sobre os países do Terceiro Mundo, ainda que substituída pelo neocolonialismo económico – estes foram os grandes eventos dum século marcado por etapas decisivas.Finalmente um novo ponto de viragem: a crise do Estalinismo na Rússia e no Leste da Europa abriu um novo estádio da História. Os representantes do imperialismo esfregaram as mãos em pleno êxtase. Sem terem disparado um único tiro, retomaram a Europa de Leste de volta para a órbita capitalista, afastando a ameaça do comunismo – na realidade apenas desapareceu uma caricatura do comunismo.
E todavia a História ainda não disse a sua última palavra. O que observámos na Europa de Leste não será nada comparado com a crise política, económica e social que se desenrolará no Ocidente. E, à medida que a crise se desenrolar, as forças de esquerda, regressarão em força.Na sua autobiografia A Minha Vida, Trotsky relata como oito anos antes da revolução de 1905, um pequeno grupo de jovens revolucionários com um duplicador manual, produziu um panfleto contra o Czarismo. Este foi o início da actividade revolucionária de Leon Trotsky. As forças revolucionárias eram muito mais pequenas e frágeis do que o que são nos dias de hoje. Oito anos depois rebentou a revolução russa de 1905 e vinte anos mais tarde, o império Czarista que durara quase mil anos, foi derrubado.
Os social-democratas russos estavam organizados num partido centralizado. Houve uma ruptura em 1903 que, apesar de acidental, decorrendo duma questão secundária, foi indicativa de deferentes caminhos trilhados pelos bolcheviques e mencheviques nos anos vindouros. Mostrou a diferença, como Trotsky indicou mais tarde, entre os “duros” e os “brandos”. Trotsky, ele próprio, permaneceu um ano com os mencheviques, para depois romper com eles e permanecer no meio, entre a posição dos bolcheviques e dos mencheviques. De qualquer modo, a viúva de Lenine, Krupskaia, escreveu alguns dias depois da sua morte: "Lenine manteve sempre a mesma atitude perante Trotsky - compreendia o papel que este podia desempenhar."
A cisão de 1903 não foi simples questão - tal como estalinistas mais tarde tentaram pretender - duma imediata separação entre duas facções da então social-democracia russa. Houve o Congresso Unido – o Congresso de Estocolmo de 1906 – onde, por um período temporário, bolcheviques e mencheviques voltaram a reunificar-se. Lenine apenas em 1912 chegou finalmente à conclusão de que não podia haver mais unidade para fins revolucionários. Só então os bolcheviques se tornaram num partido independente.
Após 1904, Trotsky ficou à margem das duas facções, mas em 1917 ele marchou ombro com ombro com os bolcheviques. Em Março de 1917, quando Trotsky estava em Nova Iorque e Lenine na Suiça, ambos adoptaram exactamente a mesma perspectiva sobre o governo provisório que emergira da Revolução. Após a Revolução de Fevereiro, os líderes bolcheviques dentro da Rússia, incluindo Estaline e Kamenev, defenderam a união com os mencheviques. Trotsky foi inflexivelmente contra - tal como Lenine.Todavia, naquele tempo, como Trotsky explicou: “o movimento que encontrara o seu símbolo em Kerensky parecia todo poderoso… Os bolcheviques pareciam nada mais senão que um grupo insignificante… Nem sequer o próprio partido tinha consciência do poder que iria reunir em breve, mas Lenine iria liderá-lo em direcção às suas grandes tarefas. Apressei-me para o trabalho e auxiliei-o” –Trotsky, A Minha Vida
A 7 de Setembro de 1917, Trotsky escreveu no Pravda: “para nós o internacionalismo não é uma abstracta ideia apenas para ser traída em todas as ocasiões oportunas, tal como é para Tzereteli and Chernov [líderes menchevique e social-revolucionário], mas um guia real e um princípio prático sagrado. Um final e decisivo sucesso é inconcebível, para nós, sem uma revolução na Europa… uma revolução permanente versus uma matança permanente: essa é a luta na qual está em jogo o futuro da humanidade.”
Tal como Trotsky comentou, “enquanto nos anos da reacção, tinha de se possuir visão teórica para perspectivar a revolução permanente, provavelmente nada mais do que senso comum seria preciso para defender o slogan de luta pelo poder em Março de 1917. Todavia, nem um único dos líderes presentes revelou sequer a visão desse senso comum. Nenhum deles passou no teste da História” - A Minha Vida.Consequentemente, Lenine declarou que depois de Trotsky se ter convencido da impossibilidade da união com os mencheviques, não houve melhor bolchevique.
Em A Minha Vida, Trotsky também sublinhou como o Exército Vermelho foi organizado e como se travaram as batalhas que determinaram o destino da Revolução como em Kazan e noutras áreas. “O primeiro requisito para o sucesso foi não esconder nada, sobretudo as nossas fraquezas, não iludir a classe trabalhadora, mas chamar as coisas pelo seu nome”. Essa foi a política que Trotsky seguiu toda a sua vida, nunca tentando esconder a verdade da classe trabalhadora.Trotsky fez maravilhas na Revolução de 1905, como presidente do soviete de Petrogrado, e como dirigente do Comité Revolucionário Militar em 1917, que organizou a revolução de Outubro.
Isto, tal como a organização do Exército Vermelho, teria sido suficiente para colocá-lo no panteão da História. Mas, de igual modo e com Lenine, Trotsky foi o organizador da Internacional Comunista – que ambos consideravam ainda mais importante do que a própria Revolução Russa. A internacional Comunista reuniu nas suas fileiras os trabalhadores revolucionários de todo o mundo. Mobilizou massas maiores do que mesmo aquelas que o tinham sido no nascimento das religiões mundiais! Ofereceu uma direcção consciente ao movimento inevitável da classe trabalhadora: tomando vantagem dele e preparando o caminho para a Revolução Mundial.
A continuar...

Sem comentários:
Enviar um comentário