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sexta-feira, 9 de novembro de 2007

TROTSKY: Herói soviético, mártir da Revolução

Leon Trotsky lendo o Pravda

Última parte do ensaio escrito por Ted Grant em 1990 sobre a figura ímpar de Leon Trotsky a revolução e contra-revolução na União Soviética. Nesa parte fina do ensaio, Ted Grant analisa o impasse do Capitalismo e a crise em que necessariamente irá mergulhar. O tempo de desenvolvimento da crise tem sido mais extenso do que se esperava, fruto do 2balão de oxigénio" que contituiu o colapso da ex-URSS, mas também devido ao crescimento do comérico mundial e do crédito. Agora, começamos a observar como esses mecanismos que adiaram a crise se tornarão num catalizador duma crise muito mais grave.

1ª parte em http://intercomunista.blogspot.com/2007/11/90-anos-da-revoluo-russa.html

2ª parte em http://intercomunista.blogspot.com/2007/11/90-anos-da-revoluo-russa_06.html

3ª parte em http://intercomunista.blogspot.com/2007/11/trotsky-heri-sovitico-e-mrtir-da.html

A crise do Estalinismo como antecâmara da crise capitalista

Todavia, a crise do estalinismo, que foi prevista pelos marxistas, é uma mera antecâmara da crise do capitalismo na Europa Ocidental e por todo o mundo. As próximas décadas serão também turbulentas nos países capitalistas. O Maio de 68 não foi um acidente. Foi o reflexo do inevitável movimento da classe trabalhadora em condições de crise.Citando um recente livro, The Politics of Rich and Poor de Kevin Phillips, um estratega dos Republicanos em 1968, um jornalista do The Guardian [22 de Junho de 1990] comenta:


“Agora que as estatísticas são estudadas, podemos dizer até que ponto os anos de Reagan fizeram girar o pêndulo a favor da plutocracia. Quando Reagan foi eleito, em 1980, o 1% mais rico da América possuía apenas 8% da riqueza nacional. Em 1988 já tinham quase dobrado a fatia para 14,9%. Existem quase 2 milhões de americanos milionários, mais de 150.000 “deca-milionários” (com uma riqueza superior a 10 milhões de dólares) e 51 bilionários. O total da riqueza da lista dos 400 mais ricos, coligida pela revista Forbes praticamente triplicou nos anos 80. Executivos das grandes empresas e corporações que no início da década ganhavam 43 vezes mais do que o trabalhador comum, recebem agora 93 vezes mais.”


Esta é a sombra dos acontecimentos porvir. Exactamente o mesmíssimo processo teve lugar entre 1920 e 1930, preparando a Grande Depressão. Trotsky, na sua introdução a O pensamento vivo de Karl Marx, apontou que:


“De facto, a contradição económica entre o proletariado e a burguesia foi agravada durante o período mais próspero do desenvolvimento capitalista, quando o aumento das condições de vida de uma certa camada de trabalhadores, que em certos momentos até foi relativamente extensa, escondeu a quebra da fatia do rendimento nacional que pertencia ao proletariado no seu conjunto. Assim, antes mesmo da queda em prostração, a produção industrial dos Estados Unidos, por exemplo, aumentou 50% entre 1920 e 1930, enquanto que a soma paga em salários, apenas cresceu 30%, significando uma tremenda desvalorização da parte do rendimento nacional apropriado pelo proletariado.”

A história repete-se a um nível mais elevado. Pelo menos, naquele período, os rendimentos do proletariado aumentaram, mas agora, apenas temos observado uma queda contínua nos últimos 20 anos. Isso significa que as contradições na economia atingiram uma extensão ainda maior do que em 1929-33. Claro que, não pode ser prevista com rigor quando a crise chegará. Pode levar alguns anos, ou pode acontecer já em 1991. Não há forma de saber exactamente, mas o que é certo é que as mesmas causas económicas produzem os mesmos efeitos económicos.

A ironia da história pode muito bem vir a ser o facto da burocracia soviética capitular perante o capitalismo na véspera duma nova crise económica e social. De todo o modo, a crise na Europa Oriental e na URSS é apenas o prenúncio duma futura crise similar no Ocidente. De todo o modo, haverá enormes dificuldades no caminho da contra-revolução na URSS e na Europa Oriental. Uma explosão está a ser preparada na Polónia e esse é o medo dos capitalistas de todo o mundo.

A teoria reaccionária do “socialismo num só país” demonstrou toda a sua futilidade e estupidez. Estaline acreditou ter estabelecido um regime que duraria mil anos. Não teve nenhum vislumbre da crise que afectaria o seu sistema poucas décadas depois… Os líderes da Internacional Comunista também não se aperceberam do que sucederia quando adoptaram esta teoria reaccionária.

Agora, muitos dos ganhos da Revolução de Outubro, incluindo o desenvolvimento da Internacional Comunista pela Europa e pelo mundo, foram destruídos. De serem um instrumento da revolução mundial, os partidos comunistas tornaram-se na reminiscência de organizações nacional reformistas nos diversos países. Cada um é mais reformista do que o outro! Na Grécia fizeram uma coligação com um governo conservador, com as mesmas forças que esmagaram os comunistas gregos na guerra civil de 1944-1947! Na Espanha, o Partido Comunista fragmentou-se em pedaços. Mesmo em países onde conservaram alguma força, como em Itália e na França, deixaram de ser agências da burocracia soviética para se transformarem nos ajudantes menores dos capitalistas. Tal como predisse Trotsky… eles mereceram esse destino.Os seguidores internacionais de Estaline e dos seus sucessores, eram uma ferramenta da política externa da burocracia soviética e mesmo agora têm cegamente apoiado Gorbatchev na direcção que este tem tomado de restauração capitalista.

Momentaneamente, com a ascensão do capitalismo, a ala direita dos reformistas está na crista da onda. Eles são o instrumento degenerado do capitalismo. Abandonaram qualquer pretensão de “socialismo”. Onde se encontram no governo, como na França, Espanha, Suécia, Austrália ou Nova Zelândia, os governos “socialistas” conduzem políticas capitalistas. Na Nova Zelândia e na Austrália efectivamente provocaram a desnacionalização da economia. Na Alemanha abandonaram, há muito, a pretensão dum qualquer programa socialista. São ainda mais degenerados do que os seus antecessores da República de Weimar.


E todavia, é da ordem natural das coisas que eles se comportem dessa maneira, porque eles também estão nas garras da economia mundial, da interpenetração das forças produtivas à escala mundial. Já não é possível operar uma “pura” política nacional. Essa é a explicação para o movimento em direcção à unificação económica – que ainda não lá chegou – da Comunidade Económica Europeia (CEE).


Este relativo desenvolvimento das forças produtivas resultou da superação parcial que os capitalistas conseguiram sobre a crise em que se encontravam – expressa na Depressão de 1929-33 e nas duas Grandes Guerras – através da transcendência dos limites nacionais de cada economia capitalista. Mas o desenvolvimento económico encontra hoje limitações na posse privada dos meios de produção e nos Estados nacionais. Isto será demonstrado ainda mais dramaticamente num futuro próximo.


Com efeito, os capitalistas repousam na exploração dos povos das antigas colónias. Ao longo dos anos oitenta, 50.000 milhões de dólares foram extraídos anualmente aos povos mais pobres do planeta. A repulsiva hipocrisia dos capitalistas exprime-se nas lágrimas de crocodilo vertidas e na pretensa ajuda económica, enquanto usam os mecanismos de comércio para sugar esses países: dão com a mão esquerda uma pequeníssima percentagem do que roubam com a direita.


O trabalho de Trotsky sobre a revolução Permanente, que era apontada aos países atrasados, retém toda a força e vigor no momento presente, apesar da aberração estalinista neste campo ter criado também novas dificuldades na teoria e perspectivas. A revolução chinesa, a revolução cubana e outras, começaram, como Estados Operários deformados e inevitavelmente irão para o mesmo beco sem saída em que se encontra a burocracia soviética no momento presente.


Todavia, esses regimes foram tremendamente progressistas, no sentido em que por todo um período histórico desenvolveram as forças produtivas que não poderiam ter sido desenvolvidas em países atrasados sob o capitalismo. Nos chamados Três Mundos, no mundo capitalista, no mundo estalinista e no mundo colonial, as ideias de Trotsky são um guia inestimável para as novas forças da classe trabalhadora que se desenvolverão.


A história terá de dizer a sua última palavra em relação à Europa Oriental e à URSS. Nesses países, o programa do “socialismo num só país” foi levado a um ridículo extremo. O nível de integração económica nem sequer chegou ao patamar da Comunidade Económica Europeia, quanto mais ao nível dos Estados Unidos da América. Cada país foi empurrado para um beco sem saída, após um período inicial de enorme progresso no desenvolvimento das forças produtivas. Não havia o controlo do "mercado" que, pelo menos, parcialmente existe sob o capitalismo, mas também não havia qualquer tipo de controlo de nenhuma espécie por parte dos trabalhadores, que é uma premissa necessária para preparar o caminho em direcção ao socialismo. O impasse ficou reflectido no completo colapso dos regimes estalinistas, começando pela Polónia e Hungria. No caso da Hungria, os estalinistas iniciaram, eles mesmo, o processo, provavelmente com o encorajamento de Gorbatechv.

Nas primeiras décadas, após a 2ª Guerra Mundial, a burocracia evidenciava uma enorme satisfação e autoconfiança. Nos anos 60, Khrushchev bradou aos países capitalistas"nós iremos enterrá-los"! Técnica, económica e socialmente, em especial com o auxílio da China e da Europa Oriental, isso teria sido perfeitamente possível: se o mesmo grau de desenvolvimento económico que tinham alcançado até então tivesse prosseguido, teriam ultrapassado os EUA por volta da década de oitenta.

Mas a voragem da burocracia, a corrupção e incompetência, acrescidas da impossibilidade de desenvolvimento da economia estatizada sem a directa participação e controlo por parte das massas, excluiu qualquer hipótese nesse sentido. E, todavia, todos os teóricos burgueses e políticos reformistas imaginaram que os regimes estalinistas poderiam manter-se indefinidamente! Agora o granito totalitário que supostamente seria capaz de conter a classe trabalhadora cai por completo! A burocracia encontra-se dividida. Um sector quer regressar atrás, ao beco sem saída do controlo burocrático. Outro sector pretende dirigir-se em direcção ao capitalismo. Com a actual e temporária ascensão do capitalismo, que tem durado algumas décadas, querem voltar-se para o capitalismo ou, para usar o eufemismo que usam, para a "economia de mercado". Haverá uma inevitável reacção!

A característica mais marcante de todos os países da Europa Oriental é o pavor que a burocracia tem da classe trabalhadora. Não existe um coerente e aberto sector dentro da burocracia com a ideia de regressar ao poder soviético tal como existia nos dias de Lénine e Trotsky. Porém, os trabalhadores da Europa oriental ainda têm a última palavra a dizer. Nas futuras batalhas no Leste europeu, na Europa Ocidental e no resto do mundo, haverá tempo, uma e outra vez, para desenvolver o programa da revolução socialista internacional.Os trabalhadores russos atravessaram um processo de desenvolvimento ao longo de três gerações desde a revolução de Outubro. Na altura, os trabalhadores industriais acabaram diluídos por um largo número de camponeses que se transformaram em proletários. Mas num extenso nível, com o massacre dos velhos bolcheviques, com o massacre da consciência "trostkista", a consciência dos trabalhadores russos perdeu-se. Ainda assim, os novos regimes que aí vêm terão ainda de ser testados pelos eventos e pela história. Muito rapidamente, os trabalhadores russos e da Europa Oriental poderão reviver as ideias do marxismo e do seu equivalente moderno: o "trotskismo".

Mesmo no pior dos cenários, se a burocracia fosse bem sucedida em restabelecer o capitalismo, uma nova revolução de Outubro seria inevitável, mas numa escala económica e social maior. De 10 milhões de trabalhadores, passou-se para um número a rondar os 140 até 150 milhões. O regime capitalista que se estabelecesse encontrar-se-ia enredado por novas contradições, particularmente quando a crise do capitalismo se desenvolver a uma escala global.A revolução russa justificou-se historicamente, independentemente das vicissitudes pelas quais a Rússia possa atravessar no próximo período. A obra de Lénine e Trotsky é imortal. Armados com as ideias e os métodos organizativos de Lénine e Trotsky, o proletariado será invencível. A sua revolta é absolutamente inevitável. Os ganhos nas condições de vida na Europa, América e Japão são, neste sentido, amplamente bem-vindas. Reforçaram o proletariado imensuravelmente em comparação com o período pré guerra.


O processo internacional e organizativo da economia de mercado e a integração da economia mundial, que conduziram a uma parcial superação da crise capitalista durante todo um período, irá, por outro lado, exacerbar extraordinariamente a crise numa fase posterior. O desenvolvimento das forças produtivas deu um balão de oxigénio ao capitalismo, mas isto inevitavelmente transformar-se-á no seu oposto. Novas barreira, novas tarifas, serão erguidas. Desde já se delineiam os novos blocos de poder: a Alemanha reunificada e a Comunidade Europeia, Japão e a Ásia, os Estados Unidos e o continente americano. Novas e ainda maiores rivalidades desenvolver-se-ão entre as potências capitalistas.

O desenvolvimento progressivo da interdependência económica colapsará num dado momento. Ievitavelmente, o futuro desenvolvimento das forças produtivas no sentido em que Trotsky descortinava em O pensamento vivo de Karl Marx - a concentração e centralização do capitalismo até a um nível nunca atingido no passado - prepará o caminho para novas e maiores recessões.A análise de Marx, Engel, Lénine e Trotsky sobre o "mercado" era correcta. No facto de que o capitalismo depende do trabalho não pago da classe trabalhadora, repousa o germe da crise que se desenvolverá no futuro. O mesmíssimo processo de acumulação, ou nas palavras de Marx, de "sobre-acumulação", é em si mesmo a garantia da crise futura.Ao evitarem a crise, os capitalistas acumularam novas contradições. A presente prosperidade é muito frágil. Através do crédito e dos gastos militares que produzem capital fictício, com a concentração e centralização do capital através de take-overs parasitárias, a classe dominante está a preparar a crises futuras.

As tarefas porvir

De todos os modos, o desenvolvimento da economia mundial lança as fundações do socialismo internacional através de computadores, micro-electrónica e automatização. Agora, é inteiramente possível, nos principais países capitalistas e na União soviética, introduzir a jornada laboral de 6 horas e de 4 dias de trabalho semanal sem redução de salário. Isto daria o necessário tempo ao proletariado para gerir a economia e o Estado.As bases materiais, políticas e sociais do socialismo foram lançadas. O que tem faltado é a consciência e o entendimento do proletariado e a o necessário partido revolucionário de massas e de vanguarda para liderar o inevitável movimento da classe trabalhadora.

Trostky explicou uma e outra vez que o internacionalismo não resulta de razões sentimentais, mas da integração económica dos diversos países, no que foi a tarefa histórica progressista do capitalismo. Isso foi conduzido a um nível que nem em sonhos poderia ter sido conjecturado por Marx, Engels, Lénine ou Trotsky. A economia mundial é una, no momento presente. Por sua vez, isso preparará o caminho para um enorme movimento internacional da classe trabalhadora.

Agora, nem sequer a União Soviética ou os Estados Unidos poderão permanecer isolados. Fazem parte da economia mundial. Brezhnev relutantemente abandonou a ideia de autarcia económica de Estaline. Gorbachev levou mais adiante essa tendência. Porém, fizeram-no não para preparar a revolução socialista mas, ao contrário, para se imiscuírem entre os poderes capitalistas. O apoio procurado por Gorbachev junto do imperialismo, apelando à ajuda de Kohl, Mitterrand, Bush ou Thatcher, é uma extraordinária confirmação do que foi previsto por Trotsky Em defesa do Marxismo: " a crescente independência da burocracia do proletariado soviético e a sua gradual dependência sobre outras classes e grupos tanto interna como externamente ao país."A União Soviética é uma super-potência com enormes recursos e, todavia, Gorbatech desempenha o papel do pedinte! Ele apenas poderá esperar a ajuda imperialista pois, enfrentando contradições insolúveis, tomou o caminho da contra-revolução e da restauração do mercado, isto é, do capitalismo.

Trotsky, desenvolvendo as ideias de Marx e Lénine, explicou que as actividades dos homens e das mulheres era decisiva. " A compreensão marxista da necessidade histórica - escreveu ele Em defesa do Marxismo – ”não tem nada que ver com o fatalismo. O socialismo não se realiza por si, mas é o resultado da luta de forças vivas, das classes e dos seus partidos". As acções dos marxistas são absolutamente vitais. Sem isso a inevitável revolta do proletariado jamais seria conduzida com sucesso.Kinnock, Mitterrand, Lafontaine, Craxi, Gonzales, Hawke e outros líderes da ala direita da social-democracia pensam em si mesmos como "realistas". Na realidade, não são superiores às condições económicas que existem no momento presente. Eles, em última análise, permanecem como ferramentas do grande capital, nas garras de forças que escapam ao seu controle. E na próxima viragem da roda da história, quando a situação económica mudar, serão esmagados.

Toda a história dos últimos 70 anos demonstrou a correcção das ideias de Trotsky. Uma e outra vez as massas tomarão o caminho da luta. O Maio de 1968 foi o pálido prenúncio dos acontecimentos porvir. Inevitavelmente, as ideias de Trotsky e Lénine - sobre a tomada do poder em mãos da classe trabalhadora - ganharão maior eco entre os activistas da classe operária e dos intelectuais conscientes procurando uma saída para a crise do capitalismo e do estalinismo que se desenvolverá nos próximos anos.

A face "liberal" do capitalismo no Ocidente, tem estado em evidência nas últimas décadas com o "iluminado" controlo pelo grande capital da liberdade de expressão, da imprensa e de organização. A democracia nos países capitalistas - explicou Trotsky - baseava-se na espoliação das colónias, na mesma medida em que a democracia ateniense se baseava na escravatura. A democracia é indubitavelmente o mais conveniente e flexível método de dominação dos capitalistas. Mas inexoravelmente, assim que a revolta das massas tome lugar, os grandes capitalistas mudarão de tácticas, como o fizeram na época entre as duas Grandes Guerras. É totalmente superficial imaginar que a democracia pode ser mantida em bases capitalistas.

Na eventualidade do falhanço duma nova vaga revolucionária, seria inevitável que eles procurassem os métodos reaccionários do passado. Já na Hungria e na Polónia, ideólogos da classe capitalista falam da necessidade duma ditadura - uma ditadura capitalista. Walesa, na Polónia, que iniciou a sua actividade lutando contra o totalitarismo estalinista, defende agora o que seria, na prática, um regime totalitário no país, para que se completassem as necessárias mudanças para estabelecer aí o "mercado". Na realidade, o capitalismo revelará todo o seu impasse no próximo período. Ao mesmo tempo vemos o impasse na União Soviética. Tanto o capitalismo como o estalinismo estão condenados. Uma nova vaga de revoluções é inevitável e irresistível.

A mais proeminente característica de Marx, Engels, Lénine e Trotsky era a sua crença na capacidade e entendimento da classe trabalhadora em levar a cabo a transformação da sociedade. Eles compreendiam que a classe trabalhadora é força progressista que pode vitoriosamente preparar o caminho para o socialismo. Apenas o programa e método de Lénine e Trotsky poderão servir as necessidades e interesses dos trabalhadores. Os jovens revolucionários devem, portanto, estudar as ideias de Marx, Engels, Lénine e especialmente Trotsky – em particular as suas obras do período entre guerras - se querem armar-se para as tarefas que os esperam no futuro.


Trostky ergueu-se "nos ombros" de Lénine, continuando as ideias do marxismo na época da reacção estalinista. Os internacionalistas que se agrupam nos diferentes países não devem temer pela diminuta dimensão das suas forças no momento actual. Os acontecimentos ensinarão as massas. Tivemos uma recente demonstração disso na campanha contra a poll tax. Com o método de Lénine e Trotsky, criar-se-ão forças que resistirão ao teste da história.Neste aniversário de Leon Trostky, podemos dizer ao "velho homem": nós saudamos-te, internacionalmente, a tendência marxista prossegue a tua obra. Devemos uma enorme dívida a esse grande homem, Trotsky. Mártir da contra-revolução estalinista, inspirador e pensador, viverá na memória da classe trabalhadora quando esta alcançar o socialismo.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

TROTSKY: herói soviético e mártir da revolução

Cartaz Soviético representando Trotsky como "São Jorge derrotando o dragão capitalista"
Trotsky foi o organizador e líder do Exército Vermelho que viria a vencer a contra-revolução "branca"

3ª Parte dum ensaioi escrito por Ted Grant em 1990 sobre a Revolução Soviética e a contra-revolução estalinista. Nas vésperas da desagregação da ex-URSS, este marxista britânico erguia a bandeira do bolchevismo

1ª parte deste ensaio em

O Estalinismo

Nesses anos, Trotsky conduziu o combate contra o que ele chamou de “centrismo burocrático” – num tempo em que Estaline e os outros líderes soviéticos ainda desejavam genuinamente o triunfo da revolução nos outros países mas, primeiro com políticas oportunistas e depois com a loucura ultra-esquerdista da insana teoria do “social-fascismo” – segundo a qual, a social-democracia e o fascismo não eram inimigos mas irmãos gémeos – pavimentaram o caminho para a vitória de Hitler em 1933.
O percurso do Comitern até 1933 foi de oscilação permanente entre o ultra-esquerdismo e o oportunismo. Numa série de artigos, Trotsky examinou as políticas do Comitern e avisou para o perigo de Hitler e as consequências que a vitória do fascismo teria para as classes trabalhadoras alemã e mundial. Defendeu vigorosamente a frente unida, com um programa de classe, entre social-democratas e comunistas de modo a prevenir a chegada ao poder de Hitler.Todavia, o Comitern não aprendeu nada com a desastrosa derrota na Alemanha e até alegou que a tomada do poder por Hitler era um passo em direcção à revolução! Mesmo em finais de 1934, quando os fascistas conduziram manifestações contra o governo liberal de Deladier na França, o Partido Comunista Francês chegou a desfilar com os fascistas!

Tivessem sido bem sucedidos e o fascismo teria chegado ao poder em França em 1934. Felizmente, os trabalhadores franceses podiam ver o que estava sucedendo do outro lado do Rio Reno e forçaram os seus líderes sindicais a organizar uma Greve Geral. Embora apenas 1milhão de trabalhadores estivesse sindicalizado, participaram nessa Greve contra os fascistas cerca de 4 milhões de trabalhadores.

Trotsky, que tinha insistido na reforma da Internacional Comunista e do Partido Comunista da União Soviética, avançou então com as ideias do inevitável colapso do Comitern como força revolucionária e da necessária revolução política na URSS.

Em seguida, o Comitern virou-se para a táctica da “frente popular” que pressupunha a subordinação do proletariado aos liberais. Trotsky lidou com isto nos seus escritos sobre a Espanha e a França. O Comitern tentava distinguir entre os “bons” e os “maus” capitalistas. Não usando duma boa clarificação política e servindo-se da crise para derrubar o capitalismo – mas forçando os trabalhadores a aceitar o apoio dos “liberais” – desiludia os trabalhadores e assim preparava o caminho para a reacção.
Na França, certos líderes, tomando esta ideia reaccionária até às suas conclusões mais estapafúrdias, reclamaram uma Frente Nacional entre os bons fascistas franceses e Mussolini contra os maus Nazis alemães! As sucessivas derrotas da classe trabalhadora abriram o caminho para a guerra!Trotsky acreditava que a IIª Guerra Mundial seria um teste decisivo para o capitalismo, resultando em revoluções no Ocidente. E, com efeito, houve uma vaga revolucionária através da Europa Ocidental após o fim do conflito. Na Grã-Bretanha, provocou a chegada do Labour Party ao poder. Na França, Itália e noutros países, conduziu a governos de coligação com os partidos socialistas e comunistas.

Mas esta nova vaga revolucionária foi traída por Estaline. Este temia que a vitória dos trabalhadores noutros países resultasse no colapso da burocracia dentro da União Soviética. De igual modo, em 1936, temendo os efeitos da revolução espanhola no seio da URSS, Estaline lançou as suas purgas criminosas, preparando o caminho para os viciados “Processos de Moscovo” onde julgou e sentenciou os “velhos bolcheviques” e Trotsky.
E portanto o capitalismo foi salvo pelas políticas dos partidos comunistas e, claro, pelos reformistas social-democratas que continuaram com as mesmas políticas que prosseguiram após a Iª Grande Guerra. Todavia, isto não teve exactamente as mesmas consequências, visto a situação ser então diferente daquela existente no final da Iª Guerra Mundial.O que permitiu a longa ascensão do capitalismo entre 1950-1973 foi a dominação do imperialismo Americano no mundo do capitalismo pós-guerra. Durante todo esse tempo, os Estado Unidos foram responsáveis por 50% da produção mundial. Serviram-se da sua preponderância para abrir os mercados mundiais à exportação. E esta expansão do comércio mundial deu um temporário balão de oxigénio ao capitalismo, mas por outro lado teve consequências progressistas também: resultou no crescimento do número, coesão e poder do proletariado através dos países capitalistas avançados e, em certa medida, até mesmo nos países subdesenvolvidos.

As políticas dos partidos comunistas e socialistas prepararam a base política para a relativa estabilização do capitalismo. Mas o Estalinismo também saiu reforçado da IIª Guerra Mundial. Apenas os marxistas compreenderam a nova situação que teve lugar, explicando as consequências da vitória do Exército Vermelho e as mudanças em direcção ao bonapartismo proletário nos países da Europa de Leste. Esta nova situação apenas poderia ser explicada usando o método de Lenine e Trotsky, não apenas pela repetição mecânica das suas ideias sem levar em conta as mudanças fundamentais que tinham tomado lugar.Por fim, nos nossos dias, Estaline foi totalmente repudiado pela burocracia, que o amaldiçoa, responsabilizando-o por todas as maleitas que afectaram a Rússia. Todavia, Estaline foi a expressão do aparato, o representante da burocracia: foi isto que o fortaleceu e lhe permitiu a vitória sobre Trotsky na batalha entre a Oposição de Esquerda e a burocracia.Trotsky explicou a degeneração dos bolcheviques que tomou lugar entre 1917 e 1924 pela mudança das condições de existência em que eles viviam. No capítulo intitulado “A morte de Lenine e a mudança de poder” em A minha Vida, ele descreve o processo envolvido:

“Para absorvermos certas perspectivas filosóficas pela carne e pelo sangue, é necessário dominar a própria consciência e coordená-la com apropria apreensão sensorial do mundo, isso é proporcionado não a todos, mas apenas a alguns. Na classe trabalhadora, um substituto é encontrado no instinto de classe… Mas há muitos revolucionários no partido e no Estado que vieram das massas mas desde há muito que se afastaram delas.” - in Em defesa do marxismoCom a mudança de circunstâncias, acima de tudo pela situação económica e pela série de derrotas da revolução no plano internacional, eles ficaram expostos “à fácil penetração de estranhas e hostis influências ideológicas”. O Estalinismo, concluía Trotsky, era “acima de tudo a ascensão automática do aparato impessoal sobre o declínio da revolução”. Era a ditadura do aparato sobre o Partido.

Trotsky desenvolveu e aprofundou a sua análise do Estalinismo numa série de trabalhos. Um dos seus últimos, Em defesa do Marxismo, foi escrito no decurso da batalha contra aqueles que queriam mudar a atitude dos marxistas em relação à URSS durante o decurso da IIª Guerra Mundial.

Trotsky manteve a tese segundo a qual, a URSS era um Estado operário burocraticamente deformado, enquanto houvesse a propriedade estatizada dos meios de produção, distribuição e troca. Esta é a caracterização fundamental dum Estado operário. Sem isso não pode haver qualquer transição para o socialismo. Mas sem a necessária democracia operária e o controlo e gestão da indústria e do Estado pelos trabalhadores, não pode haver um Estado operário saudável. A burocracia tornou-se numa casta privilegiada, reinando sobre e acima da sociedade e da classe trabalhadora. Incapaz de tomar passos em direcção a uma mais livre e igualitária sociedade, tentou preservar o status quo, mantendo uma sociedade hierarquizada, para conservar o seu poder e privilégios, prestígio e rendimento, governando pelo terror totalitário sobre os trabalhadores. Levou cinco décadas para que aquelas características que Trotsky via em 1940 se desenvolvessem até à sua máxima extensão.

No centro da disputa sobre a “defesa da URSS” estava a sua natureza de classe.A “defesa da URSS, tal como é interpretada pelo Comitern” – argumentava Trotsky – “como a luta contra o fascismo”, é baseada na renúncia a uma política de independência de classe. O proletariado é transformado – por variadas razões em variadas circunstâncias, mas sempre e invariavelmente – na força auxiliar dum campo burguês contra outro… Já o nosso principal critério não é a transformação das relações de propriedade nesta ou naquela área, por importante que possa ser em si, mas antes a mudança na consciência e organização do proletariado mundial, levantando a capacidade para defender antigas conquistas e alcançar outras novas…"

"Devemos formular os nossos slogans de tal forma que os trabalhadores vejam claramente o que estamos a defender na URSS (a propriedade estatizada e a planificação económica) e contra o que estamos a conduzir uma luta inquebrantável (a burocracia parasitária e o seu Comitern). Não devemos perder de vista, nem por um momento, o facto que o derrubamento da burocracia soviética está, para nós, subordinada, à questão da preservação da propriedade estatizada na URSS, que a questão da preservação da propriedade estatizada na URSS está subordinada, para nós, à questão da revolução proletária mundial.” – Em defesa do Marxismo

Em defesa do Marxismo, respondia às ideias de todo o tipo de “quase marxistas” que estavam desorientados pelo desenvolvimento do Estalinismo, como Isaac Deutscher, que escreveu a biografia de Trotsky. Deutscher imaginava que a burocracia podia mover-se em direcção ao socialismo, que se podia dissolver por si! Os eventos que se sucederam demonstraram que isso era fundamentalmente falso. Por outro lado, tivemos pessoas como Tony Cliff que avançaram com a ideia do “capitalismo de Estado” e que a burocracia era uma nova formação social. Isso era completamente falso.
A economia estatizada a 100% é inteiramente diferente da economia capitalista. As leis económicas que regem tal sociedade são totalmente diferentes daquelas que prevalecem no capitalismo. Por exemplo, não pode haver uma crise de sobre-produção e baixa de preços como no capitalismo. A crise na União soviética e na Europa de Leste foi de diferente carácter. Mais ainda, o capitalismo não pode funcionar sem que os capitalistas sejam, nas palavras de Marx, os “repositórios dos meios de produção”. Numa economia estatizada, essa função é ocupada pelo Estado. Os burocratas não são empresários. Como funcionários económicos e gestores, são recebedores dos salários de superintendência e ao receberem mais do que isso, fazem-no na condição de puros parasitas e não como consequência da sua funcção económica. Um Estado operário apenas pode funcionar decentemente através do controlo democrático dos trabalhadores. Se não for o caso, todos os fenómenos negativos – como a corrupção, a inépcia, o desperdício, etc. – observáveis na URSS e na Europa de Leste são inevitáveis. Ou nas palavras de Trotsky, “se o bonapartismo riff-raff [isto é, a burocracia soviética – EG] é uma classe, isso significa que não é um aborto da história mas um nascimento, uma criança viáveis.

Por um lado, a propriedade estatizada demonstrou a possibilidade de utilizar as enormes vantagens dadas pela planificação económica, por outro, a burocracia atingiu os seus limites e deixou de poder apresentar os resultados que foram alcançados nos “booms” económicos do capitalismo.Como Trotsky explicou “o objectivo a ser restabelecido pelo derrube do capitalismo é o restabelecimento das regras dos sovietes, expulsando deles a burocracia… é a tarefa dos regenerados sovietes colaborarem com a revolução mundial e construírem a sociedade socialista.O derrubamento da burocracia, portanto, pressupõe a preservação da propriedade estatizada e da panificação económica. Aí reside o fulcro de toda a questão”. Este é o sucinto programa que reteve toda a sua validade.

Trotsky, usando o método do marxismo, colocou a seguinte questão: “será que a burocracia representa um fenómeno temporário num organismo social ou transformou-se num órgão historicamente indispensável?” Ele respondeu explicando que uma “excrescência social pode ser o produto duma acidental (isto é temporária e extraordinária) consequência de circunstâncias históricas. Um órgão social (e tal são todas as classes, incluindo a classe exploradora) pode tomar forma apenas com resultado do profundo enraizamento na própria produção… a justificação histórica para cada classe dominante é a seguinte – o sistema de exploração que dirige permitiu o desenvolvimento das forças produtivas para um novo nível. Sem sombra de dúvida, o regime soviético deu um poderoso impulso à economia, mas a origem desse impulso foi a nacionalização dos meios de produção e o início da planificação e, por nenhum meio, o facto da burocracia ter usurpado o comando sobre a economia. Pelo contrário, a burocracia, como sistema, tornar-se-á no pior travão ao desenvolvimento técnico e cultural do país.” - Em defesa do Marxismo

A burocracia deixou de poder desenvolver as forças produtivas, deixou de ser um peso relativo ao desenvolvimento da sociedade – como era no início -, para se tornar num travão absoluto. Isto, explicou Trotsky, “foi velado durante um certo tempo pelo facto da economia soviética ter-se ocupado, durante duas décadas, com o transplante e assimilação da tecnologia e métodos de produção dos países capitalistas avançados. O período de empréstimo e imitação ainda podia, para o pior e para o melhor, ser acomodado aos automatismos burocráticos, isto é, a sufocação de toda a iniciativa e de todo o impulso criativo. Mas quanto mais alto a economia se ergue, mais complexos se tornam os seus requisitos, tanto mais insuportáveis se tornam os obstáculos do regime burocrático… a burocracia torna-se numa contradição irreconciliável com as necessidades de desenvolvimento. A explicação para isso deve ser encontrada precisamente no facto, não de ser a portadora dum novo sistema económico peculiar em si próprio e impossível sem ela, mas num crescimento parasitário sobre o Estado operário” – Em defesa do Marxismo
Esta análise brilhante foi plenamente confirmada pelos acontecimentos. Trotsky segue explicando: “ a oligarquia soviética possui todos os vícios das velhas classes dominantes, mas falta-lhe as suas missões históricas. Na burocrática degeneração do Estado soviético não são as leis gerais da moderna sociedade de transição do capitalismo para o socialismo que encontram expressão, mas a excepcional e temporária refracção dessas leis pelas condições emergentes duma revolução num país atrasado e cercado por um ambiente capitalista. – idem

“A revolução de Outubro não foi um acidente: foi prevista em antecipação. Os acontecimentos confirmaram essa previsão e a degeneração não a refuta, porque os marxistas nunca acreditaram que um Estado operário isolado na Rússia se pudesse manter indefinidamente. Verdade seja dita que antecipávamos a ruína do Estado soviético e não a sua degenerescência; ou para colocar as coisas mais correctamente, não distinguimos argutamente as diferenças entre estas duas possibilidades. Mas elas não se contradizem de todo. A degeneração deve inevitavelmente acabar, a certa altura, na destruição… vinte e cinco anos na escala da história, quando se trata de profundas transformações dos sistemas económicos e culturais, pesam menos que uma hora na vida dum homem.” – idemA burocracia conseguiu manter-se por um período de tempo muito mais vasto que teria sido possível prever. Isto resultou da vitória na IIª Guerra Mundial pela qual a burocracia nem sequer fora a responsável, antes cabendo esse mérito às massas na União Soviética que se recusaram implacavelmente a deixar-se escravizar pelo nazismo. Todavia, como Trotsky insistiu em dizer – no que estava novamente certo, “na URSS, o derrubamento da burocracia é indispensável para que a preservação da propriedade estatizada.” – idem

As políticas de coligação dos partidos comunistas na Europa no fim da IIª Guerra Mundial foram uma traição vergonhosa das ideias de Marx e Lenine na luta contra o capitalismo. Isso salvou o capitalismo, então, o capitalismo e deu-lhe margem de manobra para preparar as condições políticas para um novo período de ascensão económica. Agora, o colapso do estalinismo na Europa de Leste e na URSS, ou, como os capitalistas preferem pretender, o colapso do “comunismo” deu-lhes um novo balão de oxigénio.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

90 anos da Revolução de Outubro



Nos 90 anos da Revolução de Outubro, uma das melhores formas de celebrar o evento passará pelo estudo e reflexão dos "Dez Dias que Abalaram o Mundo", da revolução soviética e da contra-revolução estalinista.



Nos 90 anos da Revolução de Outubro, a melhor homenagem que poderemos prestar aos operários, marinheiros e soldados que tomaram de assalto os céus, será armarmo-nos ideológicamente para prosseguir a luta. Sempre!



Fica a sugestão de leitura duma obra-prima do marxismo e da historiografia moderna por um dos principais protagonistas da Revolução de Outubro: Leon Trotsky.



Viva a Revolução!

terça-feira, 6 de novembro de 2007

90 anos da Revolução Russa

Ao centro da fotografia, Lénine e Trotsky saúdam um desfile do Exército Vermelho



Segunda parte dum artigo escrito por Ted Grant no Verão de 1990 defendendo os ideais de Outbro na véspera da desagregação da ex-URSS



Primeira parte deste texto pode ser encontrada em






A internacional Comunista reuniu nas suas fileiras os trabalhadores revolucionários de todo o mundo. Mobilizou massas maiores do que mesmo aquelas que o tinham sido no nascimento das religiões mundiais! Ofereceu uma direcção consciente ao movimento inevitável da classe trabalhadora: tomando vantagem dele e preparando o caminho para a Revolução Mundial.

Raízes da burocracia

Essa era a intenção de Lenine e Trotsky quando fundaram a Internacional. A Internacional Comunista foi projectada para derrubar o capitalismo e abrir o caminho para a sociedade socialista. O seu principal trabalho era a educação de novas camadas de quadros que emergiam como resultado da experiência da luta de classe através do mundo e que se propunham a realizar essa tarefa. Esse foi o significado do trabalho realizado nos primeiros 4 Congresso da Internacional Comunista. As suas deliberações, as suas teses e manifestos, muitos dos quais escritos por Trotsky, constituem, ainda hoje, um legado inestimável para o movimento revolucionário.

Todavia, o reformismo salvou o capitalismo na vaga de acontecimentos revolucionários que se seguiu à Iª Guerra Mundial. A revolução alemã foi traída pela social-democracia que rejeitou o “caminho sangrento do bolchevismo” por uma gradual, lenta e pacífica transformação do capitalismo. Quinze anos mais tarde, Hitler chegaria ao poder!

Nesta fase, os líderes das várias secções da Internacional Comunista eram ainda demasiado jovens e teoricamente pouco desenvoltos. Mas podiam aprender e aprendiam de facto, no curso dos grandes acontecimentos que tomavam lugar. A derrota da Revolução Alemã [1918/1919] ensinou aos trabalhadores amargas lições e o Partido Comunista cresceu com base nessa disputa entre revolução e contra-revolução para uma organização de milhões.

Em 1923, após o incumprimento do pagamento das indemnizações de guerra por parte da Alemanha, o imperialismo francês invadiu a região alemã do Ruhr. Isto, combinado com a crise do capitalismo alemão, levou ao colapso monetário do país. A cotação do marco era de 1 bilião para cada libra. Uma crise revolucionária amadureceu na Alemanha. Todavia, as vacilações da liderança do Partido Comunista e os maus conselhos de Estaline e Zinoviev, permitiram que uma grande oportunidade revolucionária se perdesse.

A derrota da revolução alemã em 1923 reforçou a reacção na Rússia na qual se desenvolvia a partir do desapontamento com o isolamento da Revolução e as terríveis condições económicas das massas. A troika de Zinoviev, Kamenev e Estaline ganhou controlo da liderança do então já Partido Comunista da União Soviética e iniciou a sua luta contra o “trotskismo”. Na realidade, tratava-se duma luta contra as ideias básicas de Lenine e da própria revolução.

O desenvolvimento da reacção na Rússia via-se reflectido na “descoberta” da teoria do “socialismo num só país”, que Estaline apresentou em 1924. Nesse ano, em Fevereiro, Estaline publicara um livro chamado Os Fundamentos do Leninismo no qual defendia a concepção marxista de Lenine sobre a impossibilidade de construir o “socialismo num só país”, especialmente num país atrasado como a Rússia. Todavia, seis meses depois, numa nova edição, Estaline publicou a ideia contrária, sustentando que a Rússia tinha suficientes recursos para construir o socialismo! Supostamente, Isto era um consolo para as massas russas, desapontadas com o falhanço da revolução mundial. Na realidade, reflectia os interesses duma nova casta burocrática que procurava agarrar o controlo da União Soviética na premissa do declínio da participação e actividade política das massas.

Trotsky formulou, então, uma brilhante previsão: Estaline era um empírico que, naquela altura, não compreendia o que estava fazendo ou onde a teoria do “socialismo num só país” acabaria – na degenerescência reformista e nacionalista de todos e cada um dos partidos comunistas no mundo. Foi uma previsão extraordinária, amplamente confirmada pelos factos.
A corrente de Trotsky no Partido Comunista da União Soviética liderou uma luta contra o caminho da burocratização entre 1923 e 1927. Adoptaram um extenso programa de industrialização que foi combatido e contrariado por Estaline e Bukharin que queriam construir o socialismo a “passo de caracol”, gradualmente, devagar. Trotsky, no seu brilhante ensaio, A Terceira Internacional depois de Lenine, explicou a impossibilidade de construir o socialismo num só país, sobretudo atrasado como a Rússia, lutando por uma linha internacionalista na política externa e pela restauração da democracia operária na União Soviética com a regeneração dos sovietes e a devolução do poder às massas trabalhadoras.

Trotsky lutou contra o rumo traçado por Estaline e Bukharin (e até certa extensão, Zinoviev) em relação à revolução britânica, na qual antecipou a Greve Geral de 1926. Agitou, ainda, uma campanha contra a política suicida do Comintern [a Internacional Comunista] no apoio que este prestava a Chiang Kai-Shek [líder nacionalista chinês] na revolução chinesa de 1925-27 e da qual resultou no massacre de milhares de comunistas.Todavia, a grande contribuição de Trotsky para o socialismo mundial e o movimento da classe trabalhadora foi a sua análise do fenómeno “estalinista” na URSS. Sem o seu trabalho teórico, o movimento teria cegado. Analisou impiedosamente os zig-zags do “socialismo num só país” que transformou o Comitern de instrumento da revolução mundial no guarda fronteiriço da URSS. Como resposta, Trotsky em 1927 foi expulso do Partido e exilado na Sibéria.






sexta-feira, 2 de novembro de 2007

90 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA

Escrito no Verão de 1990, Ted Grant fez, neste artigo, a análise da desagregação vivida, naqueles dias, da ex-URSS, das suas razões e raízes, enquadrando o fenómeno não como a evidência do fim da história e do triunfo da capitalismo, mas na própria crise e incapacidade do próprio capitalismo em desenvolver as forças produtivas e garantir o bem-estar, a paz e a liberdade aos trabalhadores e povos do mundo. O artigo é tanto mais actual pelo facto de que, a crise e o impasse que Ted Grant denunciava ao capitalismo – na hora do seu maior triunfo – é hoje muito mais sentido e presente. O processo histórico tem-se desenrolado mais lentamente do que se esperava – e é impossível prever os ritmos e tempos da História -mas nos 90 anos da Revolução de Outubro, este artigo sublima esse acontecimento chave da era em que vivemos, armando os trabalhadores e jovens revolucionários com a análise marxista da revolução e contra-revolução ocorridas na Rússia. Por fim, este artigo é ainda uma enorme homenagem a Leon Trotsky – herói soviético e mártir da Revolução!

Primeira parte

A Revolução Russa


O século XX foi uma época de mudanças maiores do que noutro qualquer período registado na história e certamente foi o mais conturbado da humanidade. Duas Guerras Mundiais, a Revolução Russa, o surgimento do Estalinismo, a vitória da URSS contra o nazismo, o fim da dominação directa do imperialismo sobre os países do Terceiro Mundo, ainda que substituída pelo neocolonialismo económico – estes foram os grandes eventos dum século marcado por etapas decisivas.Finalmente um novo ponto de viragem: a crise do Estalinismo na Rússia e no Leste da Europa abriu um novo estádio da História. Os representantes do imperialismo esfregaram as mãos em pleno êxtase. Sem terem disparado um único tiro, retomaram a Europa de Leste de volta para a órbita capitalista, afastando a ameaça do comunismo – na realidade apenas desapareceu uma caricatura do comunismo.

E todavia a História ainda não disse a sua última palavra. O que observámos na Europa de Leste não será nada comparado com a crise política, económica e social que se desenrolará no Ocidente. E, à medida que a crise se desenrolar, as forças de esquerda, regressarão em força.Na sua autobiografia A Minha Vida, Trotsky relata como oito anos antes da revolução de 1905, um pequeno grupo de jovens revolucionários com um duplicador manual, produziu um panfleto contra o Czarismo. Este foi o início da actividade revolucionária de Leon Trotsky. As forças revolucionárias eram muito mais pequenas e frágeis do que o que são nos dias de hoje. Oito anos depois rebentou a revolução russa de 1905 e vinte anos mais tarde, o império Czarista que durara quase mil anos, foi derrubado.

Os social-democratas russos estavam organizados num partido centralizado. Houve uma ruptura em 1903 que, apesar de acidental, decorrendo duma questão secundária, foi indicativa de deferentes caminhos trilhados pelos bolcheviques e mencheviques nos anos vindouros. Mostrou a diferença, como Trotsky indicou mais tarde, entre os “duros” e os “brandos”. Trotsky, ele próprio, permaneceu um ano com os mencheviques, para depois romper com eles e permanecer no meio, entre a posição dos bolcheviques e dos mencheviques. De qualquer modo, a viúva de Lenine, Krupskaia, escreveu alguns dias depois da sua morte: "Lenine manteve sempre a mesma atitude perante Trotsky - compreendia o papel que este podia desempenhar."
A cisão de 1903 não foi simples questão - tal como estalinistas mais tarde tentaram pretender - duma imediata separação entre duas facções da então social-democracia russa. Houve o Congresso Unido – o Congresso de Estocolmo de 1906 – onde, por um período temporário, bolcheviques e mencheviques voltaram a reunificar-se. Lenine apenas em 1912 chegou finalmente à conclusão de que não podia haver mais unidade para fins revolucionários. Só então os bolcheviques se tornaram num partido independente.

Após 1904, Trotsky ficou à margem das duas facções, mas em 1917 ele marchou ombro com ombro com os bolcheviques. Em Março de 1917, quando Trotsky estava em Nova Iorque e Lenine na Suiça, ambos adoptaram exactamente a mesma perspectiva sobre o governo provisório que emergira da Revolução. Após a Revolução de Fevereiro, os líderes bolcheviques dentro da Rússia, incluindo Estaline e Kamenev, defenderam a união com os mencheviques. Trotsky foi inflexivelmente contra - tal como Lenine.Todavia, naquele tempo, como Trotsky explicou: “o movimento que encontrara o seu símbolo em Kerensky parecia todo poderoso… Os bolcheviques pareciam nada mais senão que um grupo insignificante… Nem sequer o próprio partido tinha consciência do poder que iria reunir em breve, mas Lenine iria liderá-lo em direcção às suas grandes tarefas. Apressei-me para o trabalho e auxiliei-o” –Trotsky, A Minha Vida

A 7 de Setembro de 1917, Trotsky escreveu no Pravda: “para nós o internacionalismo não é uma abstracta ideia apenas para ser traída em todas as ocasiões oportunas, tal como é para Tzereteli and Chernov [líderes menchevique e social-revolucionário], mas um guia real e um princípio prático sagrado. Um final e decisivo sucesso é inconcebível, para nós, sem uma revolução na Europa… uma revolução permanente versus uma matança permanente: essa é a luta na qual está em jogo o futuro da humanidade.”

Tal como Trotsky comentou, “enquanto nos anos da reacção, tinha de se possuir visão teórica para perspectivar a revolução permanente, provavelmente nada mais do que senso comum seria preciso para defender o slogan de luta pelo poder em Março de 1917. Todavia, nem um único dos líderes presentes revelou sequer a visão desse senso comum. Nenhum deles passou no teste da História” - A Minha Vida.Consequentemente, Lenine declarou que depois de Trotsky se ter convencido da impossibilidade da união com os mencheviques, não houve melhor bolchevique.
Em A Minha Vida, Trotsky também sublinhou como o Exército Vermelho foi organizado e como se travaram as batalhas que determinaram o destino da Revolução como em Kazan e noutras áreas. “O primeiro requisito para o sucesso foi não esconder nada, sobretudo as nossas fraquezas, não iludir a classe trabalhadora, mas chamar as coisas pelo seu nome”. Essa foi a política que Trotsky seguiu toda a sua vida, nunca tentando esconder a verdade da classe trabalhadora.Trotsky fez maravilhas na Revolução de 1905, como presidente do soviete de Petrogrado, e como dirigente do Comité Revolucionário Militar em 1917, que organizou a revolução de Outubro.
Isto, tal como a organização do Exército Vermelho, teria sido suficiente para colocá-lo no panteão da História. Mas, de igual modo e com Lenine, Trotsky foi o organizador da Internacional Comunista – que ambos consideravam ainda mais importante do que a própria Revolução Russa. A internacional Comunista reuniu nas suas fileiras os trabalhadores revolucionários de todo o mundo. Mobilizou massas maiores do que mesmo aquelas que o tinham sido no nascimento das religiões mundiais! Ofereceu uma direcção consciente ao movimento inevitável da classe trabalhadora: tomando vantagem dele e preparando o caminho para a Revolução Mundial.

A continuar...

Adere ao projecto, juntos venceremos!